OBJECTO DO MÊS / AGOSTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assunção da Virgem

Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810).

Óleo sobre tela da segunda metade do séc. XVIII.

 

PN-46

l-145xa-292 cm

 

 

 

 

 

 

Trata-se de um quadro típico da “maniera” deste artista que se exprimiu preferencialmente em grandes composições onde a vertical predomina.

É na tensão dinâmica que o movimento ascensional propicia que Pedro Alexandrino melhor demonstra as suas capacidades. Nesse sentido, esta tela é perfeitamente característica.

O alongamento das figuras, sua expressividade e elegância, a contenção cromática, exprimindo uma ambiência que envolve e articula as formas, são bem próprias deste pintor tardo-barroco, que se soube italianizar, na esteira de André Gonçalves [1685 – 1762] (o seu simétrico na pintura portuguesa, para a primeira metade do século). Também o são os rostos de novo tipo, aqui patentes na Virgem – face arredondada, boca pequena e carnuda – e de Deus Pai, que segura o ceptro da realeza – traços carregados, numa fisionomia, individualizada ainda pelo tipo de cabelo e barba sem bigode.

Nos diversos anjos e “putti”, temos por outro lado, rostos que obedecem a estereótipos, que podemos encontrar, anteriormente, na obra do seu mestre e conterrâneo André Gonçalves.

É uma obra erudita, italianizada, demonstrando plenamente um cariz barroco, num tempo em que a própria Itália se havia virado já para novas soluções.

Pedro Alexandrino, que viveu até às invasões francesas, foi um dos principais responsáveis pela manutenção e desenvolvimento, entre nós, desse gosto, que o seu próprio século considerou como o equivalente artístico do Antigo Regime, cuja liquidação em Portugal se iniciou com essas mesmas invasões.

 

José Alberto Gomes Machado

In “Olhar sobre a Pintura Portuguesa dos Séculos XVI-XVII-XVIII” – Museu Nogueira da Silva – Dezembro 1994

 

 

(…) Pedro Alexandrino de Carvalho nasceu durante o reinado de D. João V (1707-1750) e alcançou o sucesso profissional um ano após o desfecho do governo de Marquês de Pombal, o primeiro-ministro de D. José I (1750-1777), associado à reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755. O final do século XVIII corresponde ao período mais prolífero da sua carreira, que coincide com o reinado de D. Maria I (1777-1792) no qual desenvolve uma liberdade artística que tem continuidade com D. João VI (1792-1826). É, assim, um artista que passa por quatro gerações reais com diferentes orientações políticas, económicas e sociais; logo, culturais e artísticas. (…) O pintor Pedro Alexandrino de Carvalho teve um papel bastante activo na defesa dos interesses e na formação artística institucional, que já estava implementada na Europa mas não em Portugal. Segundo o próprio, os artistas deviam ser os primeiros a investir na valorização da sua categoria profissional e carreira artística, com a contratação de professores para o ensino académico, não devendo deixar essas despesas apenas a cargo dos “Grandes da Corte”. Assim, integrou, a 17 de Outubro de 1785, o cargo de Director da Academia do Nu, que existia desde 1780. Há, também, dois registos em seu nome na Irmandade de São Lucas, o primeiro lavrado em 1788 e o segundo em 1793, nos quais, contribuindo para a redefinição dos seus estatutos, escreve, juntamente com José António Narciso e Manuel da Costa, a sua opinião sobre as alterações que deviam ser promovidas na Irmandade. A Academia do Nu e a Irmandade de São Lucas foram tentativas não concretizadas de desenvolver o ensino artístico institucional, que só veio a ser instaurado em 1836; no entanto, e de forma aparentemente contraditória, a sua formação e carreira foram desenvolvidas segundo o modelo oficinal. (…)

 

Carla Andreia Carvalho Tavares

“Pedro Alexandrino de Carvalho (1729-1810): Caracterização Material, Técnica e Formal da sua Obra em Telas de Altar - Volume I – Tese de Doutoramento em Conservação e Restauro de Bens Culturais, Especialização em pintura –Universidade Católica Portuguesa, 2015,