OBJECTO DO MÊS / FEVEREIRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GUADAMECIS

Couros dourados e pintados com motivo floral. Países Baixos, início séc. XVIII.

 

Couro de vitela, prensado por placas de metal.

 

PN-91/1.2.3

Alt.-77,3xLarg. 63,3 cm

 

 

 

 

 

 

(…) Os guadamecis (gilt or Spanish leather, cuir doré, cuoio dorato e dipinto, guadamecí), cabedais decorativos sumptuosos por excelência, são cabedais artísticos produzidos, pelo menos desde o século X, na Península Ibérica e que se tornaram muito apreciados por toda a Europa, em particular, entre os séculos XVI e XVIII. Trata-se de uma arte desenvolvida na Idade Média, no sul da Península Ibérica, no reino do al-Andalus, que ganhou expressão a partir do final do século XV em várias cidades espanholas, entre as quais se destaca Córdova, tornando-se esta cidade numa referência incontornável nesta arte. No início do século XVI estabeleceram-se oficinas em diversas cidades italianas (Veneza, Bolonha, Milão), francesas (Paris, Avinhão) e dos Países Baixos e também em Portugal, na cidade de Lisboa. A partir do século XVII, foram várias as cidades dos Países Baixos que se destacaram nesta arte e se transformaram nos principais centros produtores de guadamecil, como Malines, Bruxelas, Antuérpia, Haia ou Amesterdão. O termo guadamecil é usado para designar tanto a obra como a técnica artística. (…) Foram usados sobretudo como coberturas de protecção de diverso mobiliário ou de outros objectos com superfícies delicadas (pianos, globos) e também para revestir paredes ou janelas. Estão descritos na literatura como sendo peles de ovino curtidas com taninos vegetais – as badanas ou carneiras – ornamentadas através de gravação, com a eventual aplicação de cor através do tingimento superficial, de motivos decorativos decalcados ou idênticos ao dos padrões de damascos têxteis. (…) Estes, e outros, cabedais decorativos são bens culturais europeus cuja importância no passado tem sido muitas vezes esquecida, e até negligenciada, o que tem comprometido significativamente a salvaguarda dos exemplares que chegaram até aos nossos dias, sobretudo se se atender à sua fragilidade que advém da sua natureza material de base orgânica. Em parte por estas razões, recentemente, os guadamecis foram descritos como um património cultural em risco. É de referir ainda que em Portugal existe um número significativamente reduzido destas duas tipologias de cabedais decorativos históricos, podendo por isso os exemplares existentes nas colecções museológicas nacionais, e objecto de estudo neste artigo, serem considerados raros. São também bens ainda relativamente pouco estudados, consequentemente pouco conhecidos e divulgados, em particular nas perspectivas material e tecnológica, fundamentais para uma adequada conservação (preventiva e curativa) desses cabedais. (…)

 

Lina Falcão

Fernando António Baptista Pereira

Maria Eduarda Araújo

 

in Caracterização de cabedais adamascados e guadamecis dos séculos XVII e XVIII por ATR-FTIR

http://revista.arp.org.pt/pdf/2017003.pdf