OBJECTO DO MÊS / ABRIL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRATO HISPANO-ÁRABE

 

Prato Hispano-Árabe, de gomos da primeira metade do séc. XVI, das oficinas de Manises (Valência, Espanha). Faiança vidrada com decoração em castanho dourado e com reflexos metálicos. Decoração vegetalista estilizada. No centro (ônfalo), o desgaste sofrido não permite a identificação do elemento, possivelmente heráldico.

CR-229 [ø 38cm]

 

 

 

 

 

 

 

A técnica do reflexo metálico apareceu na Mesopotâmia no séc. IX, estendeu-se pelo Egipto e Pérsia e chegou até ao califado dos Omíadas, onde foi utilizada – embora minoritariamente – entre os séculos X e XI. Nos séculos XIII e XIV o reino nazarita de Granada, Málaga e Almeria produzem uma cerâmica com motivos decorativos em dourado ou em azul e dourado, de uma tal beleza que a fazia muito apreciada na Europa e Norte de África.

Quando a situação política dos taifas granadinos se agrava, impossibilitando uma solução de continuidade, esta cerâmica passa a ser executada em Manises, para onde se deslocaram oleiros daqueles reinos para ensinar a técnica aos muçulmanos de Valência. Começa assim um outro capítulo de esplendor para a cerâmica hispano-mourisca.

Pratos de diferentes tamanhos, alguns deles de grandes dimensões, com a superfície de linha ligeiramente quebrada, são as formas mais habituais, assim como as escudelas com ou sem asas; quanto às peças de forma, continuaram a fabricar-se jarros, agora com perfis mais variados, potes de farmácia e candeias. (…)

A riqueza do reflexo, com irisados que vão do madrepérola ao turquesa, assim como a mestria dos desenhos, onde se combina, por vezes, azul e dourado, contribuem para que esta cerâmica tivesse, durante todo o século XV, um grande mercado na Europa e no Norte de África, herdando a clientela de Málaga. (…)

 

Trinidad Sánchez-Pacheco

in “Cerâmica Espanhola, dos Árabes a Miró”, Lisboa, Museu Nacional do Azulejo”, 1996.

 

 

(…) Com a criação da técnica do reflexo metálico, o Islão primitivo (…) elevou a cerâmica do ponto de vista meramente utilitário para a categoria de obra de arte. Esta técnica de decoração das superfícies cerâmicas, maioritariamente aplicada em superfícies levemente côncavas – pratos –, cuja gramática decorativa atingiu elevado requinte não foi acompanhada por outros tipos de cerâmica. (…) A religião muçulmana ao proibir a utilização a utilização de objectos de ouro, transfere para esta técnica [reflexo metálico] a sumptuosidade do metal precioso.

(…) os objectos cerâmicos fazem parte de um tempo e são o seu explícito documento. (…) o gosto por este tipo de peças reapareceu devido à sensibilidade romântica dos coleccionadores e estudiosos (especialmente em França) de finais do séc. XIX, assim como tentou ser reabilitada em várias fábricas de Espanha na mesma época. A acompanhar o movimento romântico, renasceu a apreciação por este tipo de cerâmica de características orientais (…) São elevados, [os objetos] por este motivo, a peças artísticas, integradas no domínio da História da Arte, como releva o seu coleccionismo e, posteriormente, a sua integração em museus (…)

 

Maria da Conceição Cordeiro*

in “Estudo de peças Hispano-Árabes de reflexo metálico integradas em Museu Portugueses”, Dissertação de Mestrado na Universidade Lusíada, Lisboa, 1998.

* Esta investigadora estudou, em 1998, as peças hispano-árabes do Museu Nogueira da Silva.