OBJECTO DO MÊS / AGOSTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VISTA DO DAFUNTO PARA A TORRE DE BELÉM – EMMERICO NUNES, 1943

Óleo s/ madeira

Ass. Emmerico

1943

620 mm x 640 mm

 

 

 

 

 

 

(…) Emmerico Hartwich Nunes (Lisboa, 1888- Sines, 1968) foi um pintor, ilustrador e caricaturista português. Pertence à primeira geração de artistas modernistas portugueses.

O desenho humorístico e a pintura constituem os dois pólos da sua vida. Ao primeiro consagrou uma boa parte da sua existência e com ele conseguiu alguma notoriedade. Considerava Rafael Bordalo Pinheiro “um dos maiores artistas do lápis e do humorismo”.

(…) 1904/1905 representam um ponto de viragem na vida do artista. A mãe [natural da Baviera] sempre pronta a apoiar as iniciativas artísticas do filho, assina o semanário humorístico alemão mais antigo fundado na Alemanha, o Fliegende Blätter, deste modo proporcionando a Emmerico uma primeira incursão no mundo da caricatura alemã e do desenho humorístico (…) com dezassete anos faz a sua primeira viagem à Alemanha no decurso da qual trava conhecimento com a família materna e com o país. (…) Emmerico não pára de desenhar, sem que isso o impeça de ingressar na melhor escola comercial de Lisboa, por decisão do seu pai, em 1904. O “calvário” durará relativamente pouco tempo, graças ao veredicto do pintor naturalista, José Malhoa. Daqui em diante, Emmerico encadeia dois anos de estudos na Escola de Belas Artes de Lisboa, cinco anos de Ensino em Paris (…) e uma formação na Academia de Belas Artes de Paris.

A capital da Baviera acolhe-o de braços abertos. Quando chega, em 1911, procura a editora do Meggendorfer Blätter e apresenta-lhe um álbum para crianças que desenhara em Paris. Sai da entrevista com um contrato de exclusividade no bolso, que manterá durante mais de dez anos. (…) Durante a Primeira Guerra Mundial assume a primeira página do semanário e a crónica de guerra, identificando-se totalmente com a causa alemã (…). A responsabilidade que assume com a ilustração da primeira página obriga-o a uma vigilância, a um exercício do espírito e do lápis de grande exigência, que se traduzem em centenas de cartoons de bela composição (…)

 

(…) Depois do fim da guerra, regressa a Portugal (…) Os anos atribulados do pós-guerra numa Alemanha desfeita e humilhada, a inflação e a progressiva ascenção do nazismo dissuadem o artista, que acaba por fixar-se em Portugal contrafeito. (…) O país caminhava lentamente para uma ditadura militar e os jornais humorísticos extinguiam-se uns atrás dos outros. Emmerico ainda colaborou com alguns. Paralelamente, e de forma irregular, continuou a enviar desenhos para o Meggendorfer Blätter até se extinguir também (1934). Acabaria por desenhar para uma série de jornais e de suplementos infantis portugueses, que foram igualmente rareando. Em 1945 declara na sua autobiografia que o país “não possui um único jornal humorístico e que já não há mais ensejo de publicar mais desenhos” dele. Amargurado, decide dedicar-se exclusivamente à pintura. A melancolia da sua decisão traduz-se nos retratos e nas paisagens que pinta até ao fim da vida (…)

 

(…) Emmerico Hartwich Nunes foi, com Leal da Câmara (1876-1961), o único artista português a ter assumido como caricaturista, contratos a longo prazo na imprensa estrangeira durante a primeira metade do século XIX. E foi também, à parte Stuart Carvalhais (1887-1861), o único artista português da sua geração a ter prosseguido uma carreira de desenhador humorístico.

 

Isabel Lopes Cardoso

In Emmerico Hartwich Nunes: Retrato sensível. Arte e desenho humorístico na imprensa alemã, Museu Nogueira da Silva/UM, 2004.