OBJECTO DO MÊS / NOVEMBRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Talha/fonte de faiança

com decoração vegetalista em tons de verde, azul e amarelo em fundo castanho. As pegas são em forma de répteis e a tampa possui um pequeno cão Fo de inspiração oriental. Fabrico das Caldas de Rainha, Séc. XIX, autor desconhecido.

CR-766

 

“Durante a primeira metade de novecentos, emerge em Caldas uma produção cerâmica manufacturada que irá assumir uma peculiar feição e ultrapassar o carácter utilitário, revelando uma nítida intenção artística, sobretudo, por exigência de um novo gosto e a que já é possível associar materiais e autores, por tradição oral, por alguma documentação escrita ou por ostentarem marcas e signos. Considerada de transição entre a olaria anónima e a cerâmica de autor, esta produção é, em grande parte, atribuída a Dona Maria dos Cacos (O Dona associado à alcunha seria uma forma de tratamento de referência) que ficou conhecida na história local como oleira/barrista e proprietária de uma oficina, com poucos operários (…) Esta personagem chegou até aos nossos dias envolta em mistério e interrogações e, apesar de se saber que existiam mulheres oleiras (e sobretudo vendedoras) não foi encontrado até agora nenhum documento ou registo que fizesse referência a uma oleira proprietária em Caldas, ou à sua oficina e pouco ou nada se conhece sobre a sua vida e actividade (…) As peças que Maria dos Cacos laborava e eram vendidas sobretudo nas feiras, constavam de utensílios feitos à roda (fogareiros, assadores, púcaros, canecas, bilhas, potes, asados e outras vasilhas) e peças rústicas vidradas com as cores tradicionais, e com finalidade utilitária, como paliteiros, apitos, castiçais e garrafas, vasilhas, com figuras caricaturais e grotescas, em formas de animais, macacos, leões, cães, ou de figuras humanas, como as famosas “Garrafas em forma de Mulher” e os homens a cavalo sobre barris (…) Estas peças, de gosto popular, mas que já revelam uma mudança da olaria para a cerâmica artística, eram ainda de pasta pesada, de conformação rústica, produzidas na roda, modeladas e/ou moldadas, em tons de negro, e castanho de manganés, melado de ferro, verde de cobre, com vidrados à base de chumbo e areia. Objectos de cerâmica que são já anunciadores da produção artística que vai caracterizar este centro, e revelam diversas vertentes, como um grupo de peças rústicas com finalidade utilitária, geralmente destinados a modestos compradores ou a estabelecimentos comerciais (paliteiros, apitos, garrafas, e vasilhas em formas de animais ou de figuras humanas de estilo e técnica bastante diversificada), outro grupo composto pelas famosas garrafas “Mulheres de Guitarra” (apesar de nem sempre apresentarem a guitarra mas outros instrumentos musicais) e um terceiro grupo composto por inúmeros paliteiros e castiçais com a forma de macacos, leões, cães, ou elementos mais eruditos. (…) Verificam-se em muitas das peças atribuídas a Maria dos Cacos afinidades com outras produções figuradas de cariz popular de vários centros do país, com que a oleira teria tido contacto quando vendia as suas peças em feiras, sobretudo no Norte do país, em Barcelos, Gaia, Torrinha, influenciando as produções locais e retirando deles motivos de inspiração que enriqueciam os seus modelos. (…) Contudo, a profunda transição artística que vai levar esta louça a um apuramento e elevado requinte de modelos, com reconhecimento internacional, vai ser protagonizada por Manuel Cipriano Gomes Mafra, o operário que Maria dos Cacos empregara e se tornou proprietário da sua oficina por trespasse, (provavelmente por doença ou morte da barrista), em 1853. (…) Com a experiência de oleiro adquirida, dotado de invulgar habilidade e de uma visão abrangente, o ceramista, a quem Maria dos Cacos tivera o mérito de abrir as portas da sua oficina, apreendeu e dominou as diversas fases da produção cerâmica, ultrapassando rapidamente a obra simples e rústica da oleira/barrista. Desenvolveu uma produção sofisticada, com uma decoração muito específica e esteticamente inspirada em modelos estrangeiros, apreciada pela Casa Real, e por uma clientela distinta, alcançando um reconhecimento que o colocou na órbita dos mais requintados apreciadores nacionais e internacionais, e vindo a realizar aquilo que, anteriormente, nenhum outro ceramista tinha conseguido, contribuindo de modo indelével para que Caldas se viesse a destacar entre os principais centros cerâmicos do país, no século XIX. (…) A existência e a celebridade de Caldas da Rainha devem-se, (…), às suas termas que a tornaram local de preferência da família real e da vasta corte que sempre a acompanhava, o que conferiu a Caldas um particular requinte nos hábitos e nas manifestações artísticas, incluindo a laboração de uma cerâmica que, cumprindo os propósitos de abastecer o Hospital, assumia características decorativas de realce.(…) Neste contexto de animação e de afluência à região de visitantes ilustres de que se destacavam, além da corte, aristocratas e burgueses, políticos, intelectuais, portugueses e estrangeiros, (espanhóis, franceses), com possibilidades económicas, potenciavam-se as ofertas existentes em Caldas, destacando-se a cerâmica artística que ali se produzia e que procurava corresponder em qualidade e quantidade ao gosto e solicitações dos compradores, sendo adquirida em lojas próprias nas Caldas da Rainha (…) Ceramista até agora pouco conhecido, Manuel Cipriano Gomes Mafra foi autor de uma vasta, exuberante e exótica obra desenvolvida na segunda metade do século XIX, em Caldas da Rainha, numa oficina de carácter manufactureiro, que pelas técnicas usadas, pelos modelos, motivos decorativos, cuidado no trabalho desenvolvido, modelação, constituiu o que podemos chamar o “laboratório” da estética da cerâmica característica caldense e, sobretudo, da própria obra que Rafael Bordalo Pinheiro viria a desenvolver na sua empresa. (…)”

 

Cristina Ramos e Horta

 

In “Manuel Mafra (1831-1905) e as origens da cerâmica artística das Caldas da Rainha”

Tese de doutoramento, História (História da Arte), Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2014

https://repositorio.ul.pt/handle/10451/11311

 

 

Doação de D. Maria Antónia de Carvalho Mendes Ribeiro ao MNS.

 

Nasceu na cidade do Porto, a 17 de agosto de 1936, faleceu a 03 de janeiro de 2019. Foi Licenciada em Biologia pela Universidade de Coimbra. Poetisa com vários livros editados. Além da poesia dedicou-se também à fotografia e à pintura tendo produzido muitos trabalhos. Foi membro da Associação de Escritores Portugueses e da Associação do Idioma e Culturas em Português.

 

Serviço de Mesa produzido região de Limoges em França, cerca de 1890. Manufatura William Guérin (1870-1932). O serviço composto por pratos de sopa,

raso e sobremesa, terrinas, travessas e taças, apresenta uma elegante decoração

de estilo neo-rocaille, com delicados arranjos florais em anil e lilás, interligados com curvas e ondulações, em dourado, inspiradas na natureza. A superficie de base possui subtis ondulações que dialogam com os motivos marinhos (conchas e algas), numa suave volumetria que evidencia as qualidades etéreas da porcelana.

Da doação faz também parte, um par de pitorescas gravuras assinadas por José Relvas (1858-1929), pioneiro da fotografia. (Em exposição na Sala Jorge Barradas,1.º piso)