OBJECTO DO MÊS / DEZEMBRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esculturas representando a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) de marfim hispano filipino, séc. XVI.

São José:  24cm (alt.)

Nossa Senhora: 22,5cm(alt.)

Menino Jesus: 13cm (alt.)

ES-162/abc

 

O regresso da Sagrada Família do Desterro depois da Fuga para o Egipto, em virtude da Matança dos Inocentes causada pelo Rei Herodes, representa mais uma das cenas da vida de Cristo, no que toca à sua infância. José acompanha a Virgem e o Menino Jesus na sua fuga para Egipto e trá-los, novamente, de volta a Nazaré após a morte do rei Herodes. As três figuras evidenciam a postura de caminhantes ou peregrinos. José segura na mão esquerda um cajado em forma de ramo de açucenas.

Segundo a opinião de estudiosos a maioria das obras de arte hispano-filipinas foram realizadas durante a presença espanhola nas ilhas Filipinas (nome em honra de Filipe II de Espanha) entre 1565-1898. Os espanhóis e os portugueses contribuíram para a expansão progressiva da fé cristã no oriente. No início da evangelização, para executar imagens destinadas à catequese, ao culto público quer em igrejas e capelas, recorreu-se aos artesões locais, que à sua maneira, as foram produzindo inspirando-se em modelos levados da Metrópole. Com o andar dos tempos a procura de tais imagens, naturalmente apetecíveis pela sua raridade, singularidade e exotismo, intensificou-se entre os coleccionadores.

 

(…) Grutas, abrigos naturais e a céu aberto teriam sido os primeiros ateliers dos escultores em marfim na pré-história. Instigadoras figuras femininas (as vénus esteatopigias), cabeças humanas, pequenos animais e equipamentos, foram esculpidos em marfim tirado das presas de mamute, um antepassado desaparecido do elefante.

Nos tempos históricos, as fontes naturais do marfim foram as presas de elefante, os dentes caninos da morsa e do hipopótamo, o incisivo do narval e o chifre do rinoceronte. Actualmente, temos o marfim obtido da transformação industrial de ossos de animais.

De origem vegetal e empregue na feitura de pequenos objectos, são conhecidos o marfim originário da amêndoa da jarina, palmeira americana existente na Amazónia, e o marfim dos frutos de fitelefa, palmeira encontrada no Peru e na Colômbia.

Entre as todas as fontes fornecedoras, as presas de elefante sempre foram as mais cobiçadas, não só devido ao resultado plástico do seu uso, como também aos seus expressivos registos de peso e medida. As maiores presas são próprias dos elefantes africanos que vivem na região dos grandes lagos.

(…) Agradável ao olhar e ao toque a versatilidade do marfim permite que seja gravado, embutido, recortado, laminado, polido, pintado, prensado, esculpido. Face à fina textura dos seus veios e granulações cerradas, é possível trabalhar detalhes mínimos em ínfimos espaços, com uma nitidez de contorno que nenhum outro suporte permite.

Embora utilizado a partir da Idade Média em quase toda a Europa, o marfim não firmou, neste período, tradição entre os Portugueses. Foram os africanos e os hindus, a partir dos séculos XV-XVI, os primeiros a mostrar-lhes a contribuição que este material podia trazer às artes plásticas.

(…) Conforme testemunhos existentes nas catacumbas romanas, a iconografia cristã surge nos primeiros tempos do cristianismo. A sua progressiva elaboração apoiou-se na ideia de que nada é mais claro ao espírito humano do que as imagens e os símbolos. Antes de se tornarem objectos de culto já representavam o papel de “livros dos iletrados”, suportes materiais esclarecedores das abstracções do discurso teológico, veículos seguros de doutrinação.

Transpondo fronteiras linguísticas, a eficácia da iconografia cristã na pregação silenciosa sustentou o trabalho de cristianização dos povos, relatando histórias, etapas dos Evangelhos, vidas dos santos, tudo de forma clara e directa.

Estruturada dentro deste projecto, não permitia obscuridades ou interpretações subtis: falou com objectividade e clareza. Um gesto, um detalhe ou um simples atributo simbolizam a mensagem proposta pela iconografia (…)

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In catálogo da exposição “ Arte do Marfim” - Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e Museu Histórico Nacional Rio de Janeiro – Museu dos Transportes e Comunicações - 1998